terça-feira, 25 de março de 2014

COMODIDADE AMEAÇADA

COMODIDADE AMEAÇADA
    


                                                                                    “E ninguém põe vinho novo em odres velhos. Se fizer
isso, o vinho novo romperá os odres, e entornar-se-á
o vinho, e os odres se estragarão” (Lucas 5.37).

 

 

Toda e qualquer mudança, seja ela qual for, é complicada e gera um misto de sentimentos, como conforto-desconforto, segu­rança-apreensão, paz-inquietação, prazer-insatisfação, certeza-dúvida. Mas, se por um lado as propostas de mudança nos trazem esses sentimentos divergentes e às vezes perturbadores, muito pior é aquela mudança de face absolutamente cristã, que exige de nós mais profundidade no que acreditamos, mais co­nhecimento no que sabemos, mais compromisso no que fazemos, mais responsabilidade no que tratamos, mais espiri­tualidade no que somos, mais solidariedade no que praticamos. Isto porque comumente as pessoas que são confron­tadas com tais realidades e concreções, se sentem extremamente ameaçadas na sua antiga crença, nos seus padrões éticos formais, nos seus estereótipos religiosos, na sua conduta cristã até então inquestionável e nos seus comportamentos admitidos co­mo irretocáveis. Contudo, a despeito de todas essas barreiras com respeito a mudanças, há uma que se constitui no grande e maior obstáculo para aqueles que precisam mudar: a comodidade.


A maioria esmagadora das pessoas não deseja mudar, pelo fato de acharem que não precisam de mu­dança alguma, e tam­bém em razão do fato de saberem que mu­dança, neste nível, pressupõe renúncia, despreendimento, desapego das coisas com as quais já se está acostumado. Com e­feito, qualquer mudança desse tipo in­comoda, inquieta, de­sassossega, por­quanto mexe com resistên­cias psico­lógicas fortíssimas e sobretudo intranqui­liza os que estão vi­vendo vida cristã no bem-estar da omis­são.

Mas para um cren­te cristão que deseja vi­ver na linha da coe­rência diante de Deus, sempre lhe é exigido constante tensão em buscar, à luz da Pa­lavra de Deus, a ma­neira mais correta de viver para Deus; de sorte que “mudança”  para um cristão não deve ser vista como algo in­cômodo, nem tampouco como ame­aça, mas sempre co­­mo um meio para se alcançar o crescimento espiritual de­­sejado e projetado por Deus.
 
 
Rev. Paulo Cesar Lima

SEM APELAÇÃO


SEM APELAÇÃO
Rev. Paulo Cesar Lima

            
Cansado de ouvir chavões de vitória, resolvi ser mais direto com você leitor(a). Assim, prepararei uma reflexão para segurar a sua atenção. Não sei se vou conseguir, mas coloco, abaixo, alguns conselhos meio bombásticos – depois, explico cada um deles. Vou tentar compartilhar o que quero. Vamos lá:


     1. Não acredite em nenhuma receita de uma vida cristã sem problema.

2. Não acredite em amor eterno entre os irmãos. Isso não quer dizer que você ao longo da sua vida não pode ter bons amigos.

3. Não acredite em milagres todos os dias e na hora que você quiser; eles não acontecem dessa forma.

4. Não acredite que o fato de você estar dentro da igreja e ser membro da igreja o torne compreensivo.

5. Não acredite em felicidade temporal; ela não existe.

6. Não acredite na segurança das suas orações; ela pode falhar.

7. Não acredite na constância dos amigos e irmãos; ela desaparece.

8. Não acredite em irmãos “muito santos”, principalmente os “muito espirituais”.

9. Não acredite na força de um momento alegre; ele arrefecerá.

10. Não acredite em você mesmo, mas em Deus, apenas em Deus.

 

Agora vamos por parte:
 
1. Não acredite em nenhuma receita de uma vida cristã sem problema. A vida cristã não tem receita. Somos por demais complexos, exageradamente contraditórios.
Nenhuma lei, nenhuma lista de princípios, nenhum código ético e moral e nenhuma cultura seriam largos e abrangentes para nos conter. Todos terão que enfrentar seus desafios e eles serão únicos; ninguém jamais encarou o que alguém enfrentará, porque cada um é especial. Um universo mora dentro de você.
Você, irmã, abarca sozinha uma complexidade tão vasta, que por mais que se estude, mais que se discuta, mais se perscrute, não se chegará a conclusão alguma. Você, irmão, é igualzinho no seu mundo interior. Para Deus a importância dEle fazer alguma coisa em você (transformação) é muito maior do que Ele fazer alguma coisa por você (livramento). Isto não quer dizer que Ele não possa fazer por você.
 
2. Não acredite em amor eterno entre os irmãos. Isso não quer dizer que você ao longo da sua vida não pode ter bons amigos. Todos nós somos passionais – uns mais, outros menos – vivemos com nossas emoções feito gangorras, nossos sentimentos mudam demais. Paixão arrefece, querer bem atrofia e o amor morre. Todos nós estamos sendo construídos em nossa existência interior, e Deus não fica fora disso.
 
3. Não acredite em milagres todos os dias e na hora que você quiser; eles não acontecem dessa forma. Eu não estou afirmando que eles não acontecem; estou dizendo, repito, que comumente não é isso que ocorre no mundo real. Os cristãos deveriam agir com responsabilidade em áreas que são competência humana e não de Deus. Os processos de maturidade não requerem apenas humildade. Aprender a se relacionar com o próximo, não exige milagre, mas sim grandeza, simplicidade, compreensão.
Quando Moisés pediu uma intervenção quando era seu dever agir, Deus lhe perguntou: “Por que clamas a mim? Manda que o povo marche”.
Quando Israel esperava um milagre que derrotasse um gigante chamado Golias, Deus não mandou anjos, apenas apoiou a iniciativa de um rapaz chamado Davi.
Cada um terá que trabalhar seu relacionamento feito operário de construção que se desfaz em suores para que o outro more bem. Cada um terá que sulcar a terra dura do relacionamento como aquela japonesa que se encurva no campo do arroz para dar de comer aos seus filhos. Cada um terá que lixar suas quinas afiadas como faz a manicure com a unha que arranha a pele.
 
4. Não acredite que o fato de você estar dentro da igreja e ser membro da igreja isso o torne compreensivo. O amor não torna as pessoas automaticamente compreensivas. Por isso existem os diálogos. Cada um precisa gastar tempo explicando; é preciso disposição para “perder” tempo, ouvindo. Temos razões que, num primeiro instante, parecem absurdas. Mas depois que conversamos elas acabam lógicas, coerentes. Creia: Dois monólogos não fazem um diálogo.
Por mais que a gente ame, precisamos aprender as razões do outro. 
O próprio Deus nos convida a dialogar: “Vinde e arrazoemos, diz o Senhor”. O amor convoca para o bate-papo e não pressupõe tolerância automática; o amor não gera compreensão instantânea, mas abre picada no cipoal da suspeita.
 
5. Não acredite em felicidade temporal; ela não existe. Felicidade temporal acontece, mas não existe, porque não é uma entidade que possua as pessoas. Felicidade não tem contornos, não tem espessura, ela não possui consistência. Felicidade acontece nos distraídos, nos que buscam ser pessoas integradas, humanas, solidárias, carinhosas, boas, misericordiosas e justas. Segundo o livro de Eclesiastes, felicidade, embora seja fugaz, inconsistente, efêmera e passageira, é um tempero para vida que qualquer um deve procurar.
A letra da música de Tom Jobim “Tristeza não tem fim” mostra muito bem esse aspecto passageiro da felicidade. É um libelo que merece ser ouvido:

 

 A felicidade é como a gota

De orvalho numa pétala de flor

Brilha tranquila

Depois de leve oscila

E cai como uma lágrima de amor.

 
A felicidade é como a pluma

Que o vento vai levando pelo ar

Voa tão leve

Mas tem a vida breve

Precisa que haja vento sem parar.

 
A felicidade é uma coisa boa

E tão delicada também

Tem flores e amores

De todas as cores

Tem ninhos de passarinhos

Tudo de bom ela tem

E é por ela ser assim tão delicada

Que eu trato dela sempre muito bem.

 

6. Não acredite na segurança das suas orações; ela pode falhar. A nossa oração não deve desenvolver em nós uma postura soberba de super-homem. Algumas vezes Deus faz silêncio para você conseguir ouvi-lo.
A vida cristã reserva muitas alegrias, algumas indizíveis, mas chegam também a monotonia, a mesmice chata. Um dia, porém, desaba a tristeza, com seu espanto e horror. Esse dia, a Bíblia chama de “Dia Mal”. E para esse momento, cada um precisará de coragem, determinação, resiliência e, acima de tudo, da certeza de que Deus não nos abandona nunca.
Ele não age como o mal pastor que foge quando se aproxima o lobo; não é como o capitão que abandona o barco, com os ratos; não se comporta como os ídolos, imóveis diante de seus adoradores. Deus intervém.
 
7. Não acredite na constância dos amigos e irmãos; eles desaparecem. Quando olho para fotos do meu início na carreira cristã, gosto de procurar rostos conhecidos. Porém, constato, abatido, que muitos irmãos antigos, desapareceram. As pessoas se mudam, outros criam círculos de amizade distintos, e alguns morrem e ficamos muito sozinhos.
Afirmo isso, para que todos aprendam sobre nossa necessidade de sempre conquistar novos amigos, incorporar novos irmãos, e de nos abrirmos para novos companheiros. Alguns desses novos parceiros nos acompanharão nos últimos dias de nossas vidas.
 
8. Não acredite em irmãos “muito santos”, principalmente os “muito espirituais”. Conheço vários novos convertidos que naufragaram na fé porque confiaram num “irmão santo”, numa “irmã santa” que terminaram por escandalizá-los; tem irmãos “velhos” na igreja que desviam crentes novos.
 
9. Não acredite na força de um momento alegre; ele arrefecerá. Os momentos felizes passados em nossa vida devem ser festejados e celebrados por nós, sem que sejam o motivo da nossa permanência na presença de Deus. Isto porque o dia que eles cessarem não ficaremos perdidos e desanimados diante de Deus.
 
10. Não acredite em você mesmo, mas em Deus, apenas em Deus. Todas as pessoas são um complicado tablado de xadrez. Quantas vezes eu me surpreendo comigo mesmo. Sou imprevisível até para mim. Assusto-me quando ajo com doçura e perco minha tolerância; sou um enigma a ser descoberto todos os dias. Por isso, nunca rotule ninguém, jamais acredite que você pode antecipar a próxima ação de quem acha que conhece. 
Somos uma oficina de onde saem as mais belas poesias e as mais macabras perversões. De nosso peito brotam homicídios, mas também florescem belos jardins.  
Precisamos da graça de Deus para termos liberdade de crescer e precisamos de sua misericórdia para tentar mais uma vez. Do nosso próximo, carecemos de sua longanimidade.
Minha oração é que a paz de Deus repouse sobre seu telhado.

segunda-feira, 24 de março de 2014

O NÍVEL DE COMPROMETIMENTO DE UMA AMIZADE


O NÍVEL DE COMPROMETIMENTO
DE UMA AMIZADE
 
Pelo Rev. Paulo Cesar Lima

  

 
É do velho filósofo Sócrates, oráculo dos gregos, a máxima: “Amigo, não há amigos!”.
Parece que o problema de se achar amizade sólida, verdadeira, coerente, não é coisa nova. Mas, até onde uma amizade deve ir para provar sua lealdade? Como provar o nível de envolvimento de um amigo em face de situações extremas: defendê-lo, por exemplo, diante de algozes assumindo todas as consequências resultantes da defesa? Qual a maior prova de amizade que se pode dar a um amigo senão se expor por conta de ajudá-lo, principalmente quando este está sozinho ou ausente de um linchamento moral. Só dizer que é amigo não basta. Há que se provar.

A julgar por essas e outras razões, está faltando amigo de verdade que defenda a justiça, a coerência. À procura de amigos assim muitos estão, principalmente quando se sabe que o que mais há são aliados, sem nenhum envolvimento de coração.

Nesta desesperada busca por amizade nos deparamos com fatos paradoxais. É o inusitado que nos apanha, assalta e converte em pessoas crédulas que, mesmo diante de contradições, podem a qualquer hora ser surpreendidas, invadidas pela realidade crucial e irrefutável de que amigos há, é preciso apenas descobri-los.    

Quem é que já não teve a grata surpresa de ser traído pelo melhor “amigo”? Por outro lado, quem é que também já não teve a régia recompensa de ser brindado por uma amizade inesperada?

Mas se a amizade que confiamos pode não ser a que é real, como podemos confiar no real? Desconfiaremos sempre do real para depositar o coração no inesperado?

É realmente muito complicado para qualquer ser mortal aceitar o fato de não poder ter, com ninguém, qualquer relação de confiança. Todavia, a Bíblia diz que há amigos mais chegados que irmãos. Certamente isso não se trata de frase de efeito nem qualquer coisa que o valha. É realidade.

Mas se isso ajuda você que já viveu ou vive este momento de desilusão à procura de uma grande amizade, a Bíblia assevera que “maldito o homem que confia no homem”.

O que o texto contempla aqui não é o “eu” confiar no “tu”, mas sim a empáfia humana que acredita que pode viver independente de Deus, com a força do seu próprio braço.

Se fôssemos pensar como a maioria, diríamos que o assunto não tem solução: não há amigos de verdade. Mas, se raciocinarmos com ausência de preconceito, concluiremos que esse é o grande mistério da convivência: quem é quem na história do convívio humano.

Basta uma olhada para trás para que lembremos alguns episódios bem pitorescos da nossa convivência, e quão difícil é para alguém ser aquilo que gostaria.

Eu diria que tudo isso se resolve com uma boa e imparcial leitura da vida. Nem nós nos conhecemos. Somos alguém hoje e outro amanhã.
 
 
 
Há duas palavras profundamente sintomáticas que explicam o comum do nosso comportamento com respeito à amizade. Fidelidade (lealdade) é uma delas; a outra é integridade. A primeira assume um tipo de comprometimento por vezes irracional, porque acha que só assim se é amigo de verdade. A outra, a integridade, tem ângulos de percepção bem mais apurados. A integridade tem a ver com um estilo de amizade completa: amigo por aceitação e comprovação. A fidelidade, ao contrário, é cega, absolutamente comprometida. Enquanto a integridade enxerga e se firma sobre princípios morais fundamentais dos quais não se afasta, a fidelidade deixa-se levar pela paixão de fazer da luta algo pessoal. A fidelidade quer proteger a pessoa; a integridade vê e protege a instituição, ou seja, o que a pessoa representa.

A fidelidade erra porque julga a pessoa de forma passional. Este não é o Espírito de Cristo. Mas quando se julga pela visão da integridade, observa-se a pessoa no todo que ela possui. Leva-se em conta a verdade em toda a sua abrangência.

É óbvio que se entende que ninguém sabe calcular o custo de uma amizade. Para Jônatas, amigo de Davi, a amizade quase lhe custou a vida. O fato é que quem tem amizade à base da fidelidade o envolvimento é total, intransferível. Quem tem amizade à base da integridade, não aceita transgressão de princípios. O amigo íntegro não impõe regra ao outro tanto quanto sua submissão à justiça e a verdade.
 
De resto mesmo, fica a amizade madura, que gosta além das próprias ambiguidades, dos próprios sentidos e que insiste em ter o amigo, mesmo sem retorno, sem troca. É o tudo/nada pela amizade.
 
 
 
Troque o "quem ganha alma sábio é" (tradução incorreta) para "quem sabe fazer um amigo é sábio!
 
 
 
 

quarta-feira, 19 de março de 2014

COMO CONHECER A VONTADE DE DEUS?

INTRODUÇÃO

Hoje, eu conversava com uma pessoa sobre a vontade de Deus. O interessante que um diálogo como este, quase sempre, tende a chegar a um lugar comum: “Como descobrir a vontade de Deus em meio a tantas vozes e como saber que é Deus quem está falando, quando nosso coração (nosso desejo) fala mais alto do que qualquer coisa?”
 
Vou tentar explicar essa questão que gera tantas dúvidas e apertos nos corações.
 
Primeiramente temos que separar, obrigatoriamente, o Antigo Testamento do Novo. Você poderia retrucar e dizer: “Mas Antigo e Novo Testamentos não são a mesma coisa? O Deus do Antigo Testamento não é o mesmo do Novo Testamento?”
 
Eu respondo: Sim é. Mas eu preciso pontuar algumas coisas das quais não podemos nos afastar, antes de fazer qualquer interpretação sobra a vontade de Deus.

O TRABALHO DE MEDIAÇÃO NO ANTIGO TESTAMENTO

No Antigo Testamento, as pessoas buscavam a vontade de Deus através de mediação, tarefa desempenhada por um sacerdote, profeta, além do longo período patriarcal em que os pais das tribos e depois dos clãs, serviam de voz de Deus. Das nove maneiras de Deus falar com o seu povo no Antigo Testamento, a saber: 1) sonhos, 2) visão, 3) profecia, 4) peso no coração, 5) urim e tumim, 6) éfode, 7) sacerdote, 8) juízes, 9) reis, uma se destacava como a mais frequente: consulta ao profeta. Só mesmo homens como Moisés (Deus falava com ele face a face), Davi (fez uma tenda para falar com Deus), Isaías, Jeremias, Daniel, os profetas maiores e menores, tinham o privilégio de ouvir a voz de Deus. Mesmo esses ouviram Deus falar através de mediação.

JESUS – A VONTADE DE DEUS EXPRESSA ENTRE OS HOMENS

No Novo Testamento a coisa MUDA. O texto na carta aos hebreus, “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias PELO FILHO” (Hebreus 1.1), deixa claro que a principal ligação do homem com Deus, HOJE, é Jesus, mais ninguém. Ele (Jesus) disse: “Eu sou o caminho verdadeiro e vivo; ninguém vem ao Pai a não ser por mim”. 

O que acontece agora com os que gostam de buscar a vontade de Deus antes de qualquer projeto?
Terão que se acostumar a pensar a vontade de Deus de outra forma. A vontade de Deus está expressa na pessoa de Jesus. Não precisamos sair por aí à procura da direção de Deus. Temos, hoje, a mensagem, a revelação de Deus, que é Jesus. Portanto, no Novo Testamento não precisamos de gurus, rezadores, profetas, irmãs de oração forte; não precisamos de ninguém para nos dizer o que Deus quer de nós. O FILHO DE DEUS NOS DEIXOU A PAR DISSO. Só precisamos acreditar na obra vicária, completa e final de Jesus Cristo.
 
Ouçam: Hoje, a nossa escolha de qualquer coisa na vida está dentro da vontade de Deus (porque Nele vivemos, nos movemos e existimos). Isso não quer dizer que, em razão disso, não teremos dissabores, dificuldades, desilusão, tempestades. É o risco da vida. Paulo foi avisado pelo profeta que ele iria ser preso e morrer em Roma. Paulo ouviu Ágabo atentamente, mas não foi influenciado em nada pela palavra do profeta; continuou a sua obra como apóstolo de Jesus. Nenhuma profecia pode influenciar o homem de Deus. Paulo foi o homem que viveu mais intensamente a vontade de Deus, mas não deixou de passar por maus pedaços. Aliás, esses que vivem tateando em busca da vontade de Deus devem lembrar que quanto mais somos honestos com os desafios do evangelho, mas perseguição nós passamos. “Quem quiser viver piamente diante de Deus, passará perseguição”; “não somente crer nele, mas padecer por Ele”, declara o apóstolo dos gentios.
 
Estamos sempre prontos a declarar as formas, as maneiras, os meios para se obter as bênçãos e as vitórias de Deus. Mas, não obstante o que geralmente se diz e se afirma ser verdade, há muito mais a se aprender acerca de Deus e da maneira como Ele se move na resolução dos nossos problemas.
O episódio na vida de Moisés serve de lição, a custa de muito suor e questionamentos, sobre outro tipo de comportamento da parte de Deus com relação às nossas causas.
 
Vamos observar algumas 04 (quatro) verdades contidas em Êxodo 5.1-23 que reclamam nossa atenção. Analisemos:
 
1. A obediência a Deus nem sempre resulta em bênçãos imediatas (v. 19).
 
2. Não se pode concluir que pelo fato de alguém fazer o que é certo a sua vida será sempre fácil (Êx 6.9).
 
3. O sofrimento algumas vezes segue a fidelidade.
 
4. Aqueles que seguem a Deus devem ter paciência, pois o horário de Deus não é o nosso horário. O planejamento celestial nem sempre se encaixa com o que achamos ser o melhor para nossas vidas e a vida de outras pessoas. 


1. A obediência a Deus nem sempre resulta em bênçãos imediatas (v. 19).

Estamos tão acostumados com um evangelho imediatista que parece não conseguirmos mais viver de forma diferente. No entanto, fica mais do que provado na Bíblia que, comumente, Deus age de forma bem diferente desses nossos esquemas.
 
Não se pode querer que Deus faça as coisas conforme as fórmulas utilizadas por nós. Não há possibilidade de isso acontecer sempre. Um dia seremos surpreendidos por outros caminhos tomados por Deus.
 
Não é a obediência que faz Deus realizar as coisas. Mas a sua soberana vontade.

2. Não se pode concluir que pelo fato de alguém fazer o que é certo a sua vida será sempre fácil (Êx 6.9)

Alguém disse que não são as fórmulas que conseguem arrancar o “Sim” de Deus; ao contrário, os que servem a Deus acostumam-se a seguir os bons ventos soprados por Ele.
 
Rui Barbosa já dizia que chegaria o dia em que as pessoas de bem sentiriam vergonha por serem honestas.
 
Ledo engano cometem aqueles que pensam que seguir a Jesus é sempre um mar-de-rosas. Segundo a teologia paulina, quem quer servir a Deus piamente sofrerá perseguições.

3. O sofrimento algumas vezes segue a fidelidade

No texto bíblico que tomamos por base, Moisés pensa que é só chegar, dizer o que Deus mandou, e pronto: tudo resolvido. Absolutamente.
 
A nossa fidelidade pode nos custar muito caro do ponto de vista humano.
 
Moisés teve a nítida sensação que o problema dos seus irmãos piorou com a sua intervenção. Essa é uma sensação de impotência que todos os que servem a Deus devem passar para entender que o poder pertence a Deus.

4. Aqueles que seguem a Deus devem ter paciência, pois o horário de Deus não é o nosso horário.

Parece jargão repetir que Deus tem o horário certo de realizar suas obras e nada nem ninguém pode impedi-lo. Não raro, tomamos caminhos errados quando não sabemos esperar em Deus.
 
Moisés, no primeiro momento, ficou perplexo com todos os contrários do seu programa de libertação. O grande legislador de Israel teve que aprender a maneira como os projetos de Deus acontecem na história: misteriosamente.

CONCLUSÃO:

Estas são lições preciosíssimas que todo cristão deveria pelo menos levar em conta, a fim de não cometer erros inomináveis na sua avaliação das ações de Deus.



Rev. Paulo Cesar Lima
Presidente da CMADERJE

terça-feira, 18 de março de 2014

A MAIOR LUTA DE JESUS

A MAIOR LUTA DE JESUS
  
   A MAIOR LUTA DE JESUS
 
 
 
A maior luta de Jesus no primeiro século foi contra a virulência do sistema sacrificial presente na estrutura sócio-poilítica, econômica e religiosa da Palestina do primeiro século e que corroía a vida dos oprimidos. É nesse contexto que devemos entender a prática de Jesus como desligitimadora da interpretação da lei feita pelas classes dominantes.

Jesus defende a lei (Torah), como vontade primordial de Deus em favor da vida. Jesus se posiciona contra as tradições humanas, criadas pelos homens e utilizadas "como vontade de Deus", para poder oprimir os demais. Esta é a visão de Jesus. Ou seja: a vida humana está sempre acima da lei. Deste modo, qualquer pretensa manifestação da vontade de Deus contra a vida real dos seres humanos acaba sendo um atentado ao próprio Deus.
 
A lei está sempre em referência à vida. Nenhuma lei tem valor em si. Isto é o que significa que "a lei foi feita para o homem". Aí está a grande novidade da prática de Jesus, que manifesta a soberania da pessoa (sujeito) perante a lei e seu cumprimento e que certamente foi considerada escandalosa, subversiva e até mesmo demoníaca pelos dirigentes judeus. Isto nos permite entender por que nos evangelhos se insiste, depois da morte de Jesus, que Ele foi morto "cumprindo-se a lei". Ele foi morto pelo pecado que sempre denunciou, pelo pecado que se comete cumprindo a lei.

O pecado o matou, porque Ele o havia denunciado e o faz cumprindo a lei. Jesus morre pelo pecado que se comete cumprindo a lei. E é morto porque denunciou este pecado. O apóstolo Paulo, em sua teologia, interpreta a morte de Jesus como um sacrifício que nos liberta de todos os sacrifícios, porque liberta a pessoa da busca da justiça pelo cumprimento da lei.
 
 
Rev. Paulo Cesar Lima
Presidente da CMADERJE



segunda-feira, 17 de março de 2014

A NOVA GERAÇÃO PRECISA MAIS DE ATENÇÃO E CONVÍVIO DO QUE DE CENSURAS


A NOVA GERAÇÃO PRECISA MAIS DE ATENÇÃO

E CONVÍVIO DO QUE dE CENSURAS

Texto: Levítico 23.33-43.

 

Se cada um varresse a calçada de sua casa, no fim
do dia a rua toda estaria limpa.

Jean Vien Jean.


INTRODUÇÃO:



Não estamos lidando com situações insolúveis sem precedentes em relação à juventude. Estamos, sim, como pais, com os nossos pés atolados na indiferença. Preocupamo-nos com o nosso próprio umbigo, correndo atrás de sobrevivência. Nossa indiferença ainda tem possibili­­­­­dade de ser revogada, porque se trata de um comportamento pontual: falta de tempo. 

 
Em face desse indiferentismo crônico a nova geração segue abandonada a sua própria sorte, tomada por um sentimento de exclusão, solidão, negação e falta de tempo dos pais. O fardo pesado desse “sentir-se só” terminou culminando no aparecimento de um agudo ressenti­­­­­mento com relação a tudo e a todas as coisas que atravessam sua existência. Jovens quando se sentem desamparados não conseguem discernir entre o que é certo e o que é errado. Por isso deixam o convívio familiar e se apegam a amigos solidários, casuais e ocasionais, formando sua nova rede de amizade.

 
O pior de tudo é que essa atitude de indiferença (falta de tempo) por parte dos pais com relação aos filhos está ocorrendo dentro do arraial cristão-evangélico. 

 
Não paramos para ensinar os nossos filhos sobre a razão da nossa esperança de forma sistemática e contínua; não ensinamos (dar paladar, conforme a ideia hebraica) nossos filhos a gostar dos valores divinos; não paramos para falar sobre as nossas raízes, história, cultura, tradição...

 

ESTAMOS SEM TEMPO, PORQUE ESTAMOS VAZIOS DE EXPERIÊNCIA

 
A frase “não tenho tempo” sagrou-se como a síntese que identifica nossos curtos e velozes dias atuais. Então, essa efemeridade do tempo – de um tempo que não se tem porque não se mantém – e a experiência de não ter mais tempo dizem respeito ao advento metropolitano contemporâneo.

 Se chegarmos à nossa contemporaneidade, nós veremos uma contração do tempo, esse sentimento de que não há tempo e, simultaneamente [de que] é um tempo intensificado. E é um tempo que é uma linha reta abstrata, é um devir vazio do tempo.

 
Segundo Walter Benjamin,

 
as rugas e as marcas nas nossas faces são as assinaturas das grandes
paixões que nos estavam destinadas; mas nós não estávamos em casa.

 
O que ele quis dizer com isso? Ele quis dizer que nós não temos tempo para viver todas aquelas experiências para as quais, eventualmente, o destino nos dispôs. E, portanto, o conceito de experiência e de perda da experiência é fundamental no mundo Moderno.

 
No antigo alemão, a palavra experiência (fahren) significava atravessar uma região durante uma viagem por lugares desconhecidos ou, como radical «per»: experiência, sair de um perímetro. Quer dizer, sair da condição do já conhecido, do já vivido, para ampliar vivências, acontecimentos e repercussões desses acontecimentos novos nas nossas vidas. Do radical «per» também vem a palavra periculum, quer dizer, atravessar uma região durante uma viagem, onde perigos podem nos assaltar. E, para esses perigos, há a palavra que se associa a periculum, que é oportunus, «portos», que quer dizer saída. Então, as experiências que nos acontecem durante uma travessia no desconhecido, em uma viagem, são experiências que alargam a nossa identidade, o nosso conhecimento, a nossa sensibilidade e as nossas condições no mundo, conquanto tenham os seus perigos.

 
No presente, com essa contração do tempo, a experiência foi abolida. Por quê?

 

A experiência era algo que se transmitia de geração em geração no sentido de que narrativas comunicáveis se faziam como modelos exemplares de ensinamentos para gerações vindouras. A relação do presente com o passado se fazia mediada pela tradição.

 

O que significa tradição? A tradição não é só uma herança que nos chega como testamento, senão seria uma letra morta. A tradição é algo que chega... mas necessita de ser interpretada, conhecida pela nova geração. E os exemplos lá escritos, como em provérbios, fábulas contraídas ou disten­­­­­didas, são histórias narradas coletivamente.

 
Quando havia experiência do tempo, esse tempo era um tempo artesanal, ele era tecido coletivamente por uma comunidade de ouvintes ou espectadores e pelo narrador tradicional. Quem era o narrador tradicional? Ele era ou aquele preso à terra – que era a memória do lugar –, era o agricultor sedentário; ou então era o marinheiro navegante. Tanto que a expressão “quem viaja tem muito a contar” vem dessa ideia: tanto daquele que tem histórias porque permanece preso no mesmo lugar – ele então ouve as histórias e transmite de geração a geração –, quanto do viajante que passa por muitos lugares e muitas coisas lhe acontecem nesses periculum, e nesses «portos» em que chega o viajante.

 
Walter Benjamin diz:
 

«Eu viajo para conhecer minha geografia».

 
Ou seja, a questão do espaço é ligada à questão do tempo na tradição. E nós, na contemporaneidade, nos acostumamos a associar a ideia de tradição com a ideia de atraso. Porque se construiu uma ideia de progresso que identifica «modernidade e progresso», «passado e atraso» quando, na verdade, não é tudo do passado que merece ser conser­­vado – porque não se tratam de relíquias e nem de «egipcismos», nem do mausoléu da história. Mas se trata de recepcionar, no presente, aquele excedente de sentido do que aconteceu, e que pode nos ser de valia para nos ensinar a enfrentar os infortúnios da vida.

 Em um ensaio de Benjamin, que se chama Experiência e pobreza [publicado em 1933], onde ele trata da questão da experiência, ele fala tanto da experiência da pobreza, quanto da pobreza na experiência no mundo contemporâneo. Ele começa este ensaio narrando uma fábula, já conhecida em Esopo [lendário autor grego que teria vivido na Antiguidade e a quem se atribui a paternidade da fábula como gênero literário], que é do século VI a.C. [uma fábula de] de um pai agonizante que, em seu leito de morte, diz aos seus filhos: «nessa nossa terra há um grande tesouro». O pai vem a falecer, os filhos cavam como podem e não acham tesouro algum.

 Mas, com a força de terem revolvido o terreno, as colheitas foram frutí­­­­feras e eles enriqueceram.

Essas histórias, então, tinham um sentido exemplar, eram ensinamentos transmitidos de geração a geração, o que nos orientava na vida e no pensa­­­­­mento.

Quando em um provérbio, se nós tomarmos, por exemplo, o livro de Levítico:


«Como um natural entre vós será o estrangeiro que peregrina convosco; amá-lo-ás como a ti mesmo, pois estrangeiros fostes na terra do Egito. Eu sou o SENHOR vosso Deus» (Levítico 19:34)

 
É um provérbio, mas que concentra uma tradição e experiência de muitos séculos, que tem que passar para que essa mensagem seja compreendida a cada época e em cada presente. Ora, segundo Walter Benjamin, nós não nos ligamos mais ao passado pela tradição [já]; a ideia de tradição se quebrou, então o passado (ou a tradição), não tem mais presença em nosso cotidiano, porque nós vivemos, justamente, um tempo acelerado e, ao mesmo tempo, contraído, de tal forma que o que nós temos é um advento de um tempo absolutamente vazio.

O que eu estou querendo dizer é que estamos sem tempo porque estamos vazios de experiência. Já não sabemos sair do nosso perímetro e nem levar nossos filhos a buscarem atravessar uma região desconhecida, com todos os seus perigos, mas com a oportunidade de alargarem sua identidade, conhecimento, sensibilidade, existência.

 
A EXPERIÊNCIA COM A ALEGRIA E A GRATIDÃO

 
A Festa dos Tabernáculos era composta de dois sentimentos: a) a alegria e b) a gratidão pela colheita. Eram sete dias de reflexão, onde as famílias se desligavam de seus afazeres seculares para se voltarem para Deus na mais absoluta entrega de coração e vida.
 
É disso que precisamos com urgência: parar a nossa correria e nos voltarmos para Deus e ensinarmos os nossos filhos a tradição de nossos pais. Sentarmos com eles e explicarmos a razão da nossa esperança e darmos a eles a história, a referência através da qual eles possam ter base para fazer a sua própria história.
 
 


Rev. Paulo Cesar Lima
Presidente da CMADERJE.